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23 de outubro de 2013

Manifesto internacional da Divisão de História da Ciência e Tecnologia (DHST) da Internacional Union of History and Philosophy of Science and Technology (IUHPST) contra o Projeto de Lei 4699/2012 de regulamentação da profissão de historiador

A maior organização internacional de História da Ciência e Tecnologia apresenta críticas às restrições que o Projeto de Lei 4699/2012 pretende impor aos pesquisadores de história da ciência, história da arte e outras áreas semelhantes. 


"[...] em nome de nossos colegas brasileiros e da comunidade internacional de historiadores da ciência, nós recomendamos fortemente que a proposta de legislação seja rejeitada em sua forma presente, ou pelo menos emendada de modo a reconhecer e celebrar a amplitude e a diversidade de competências, conhecimentos especializados e formações educacionais dos muitos tipos de historiadores que constituem a profissão histórica."

Veja o texto completo desse manifesto, abaixo.



União Internacional de História e Filosofia da Ciência e da Tecnologia (IUHPST)
Divisão de História da Ciência e da Tecnologia (DHST)
Escritório do Presidente

22 de Outubro de 2013

Prezados senhores, senhoras, colegas e ilustres legisladores da Câmara dos Deputados e do Senado Federal do Brasil:

Escrevo em nome do Comitê Executivo da Divisão de História da Ciência e da Tecnologia (Division of the History of Science and Technology) da União Internacional de História e Filosofia da Ciência e da Tecnologia (International Union for the History and Philosophy of Science and Technology), em resposta à proposta de lei brasileira 4699/2012 de regulamentação da profissão histórica.

A União Internacional de História e Filosofia da Ciência e da Tecnologia é membro do Conselho Internacional de Ciências (International Council for Science, ICSU, da UNESCO). Sua Divisão de História da Ciência e da Tecnologia representa 49 organizações nacionais e mais de 20 comissões e seções científicas, e é o organismo internacional que representa a história da ciência e da tecnologia, e o líder mundial na sua promoção. Nosso recente Congresso Internacional de História da Ciência, Tecnologia e Medicina (International Congress of the History of Science, Technology and Medicine, ICHSTM), realizado em Manchester, no Reino Unido, atraiu 1.800 participantes de todo o mundo - incluindo um grande contingente do Brasil. Realmente, com base em uma notável proposta da delegação nacional do Brasil, nosso próximo Congresso Internacional em 2017 será realizado no Rio de Janeiro - nosso primeiro encontro a ser realizado no hemisfério sul. Esta é uma clara indicação da elevada estima com a qual a comunidade brasileira de história da ciência é considerada internacionalmente, e esperamos que o encontro do Rio de Janeiro seja tão bem sucedido quanto o de Manchester.


Sendo uma disciplina histórica, a história da ciência procura produzir interpretações equilibradas e objetivas sobre os significados históricos e culturais de instrumentos científicos, ideias científicas e práticas científicas em seus muitos e variados contextos de desenvolvimento e uso. Por causa da natureza especializada de grande parte do conhecimento científico e técnico, os historiadores da ciência geralmente precisam de treino científico ou matemático, assim como histórico. Sem tal conhecimento especializado, grande parte da história da ciência simplesmente não poderia ser escrita. Por isso, nossa profissão inclui estudiosos com diplomas em ciência, matemática, medicina, engenharia e outros campos, assim como muitos com diplomas em história. Embora muitos de nós - incluindo alguns dos membros mais eminentes de nossa profissão - não tenhamos títulos formais em história, todos nós encorajamos rigorosos métodos históricos, padrões e valores em nossa pesquisa e nosso ensino.

Exigindo que os professores de história e os historiadores com cargos públicos possuam qualificação formal em história, a proposta de legislação não reconhece de forma adequada a diversidade de habilidades exigida em um campo histórico especializado como o nosso. Suspeitamos que há muitos outros casos semelhantes - a história da arte é um exemplo óbvio. Como membros da corrente principal da profissão histórica, os historiadores da ciência são capazes de fazer enormes contribuições à pesquisa, ensino e preservação da herança cultural precisamente por causa da diversidade das formações educacionais das quais eles provêm. Por exemplo, o conhecimento do papel social e cultural da ciência, e a aquisição das ferramentas de pensamento crítico necessárias para avliar a ciência e para criar políticas científicas - certamente uma das habilidades fundamentais necessárias pelos jovens de hoje e pelos tomadores de decisão do futuro - são aprendidas melhor no estudo focalizado da trajetória da ciência, que um historiador da ciência pode proporcionar. Qualquer tentativa de produzir uma legislação limitadora terá profundas consequências negativas, deixando de reconhecer isso, e marginalizará a história da ciência e outros setores vitais e intelectualmente arrebatadores da disciplina histórica.

Portanto, em nome de nossos colegas brasileiros e da comunidade internacional de historiadores da ciência, nós recomendamos fortemente que a proposta de legislação seja rejeitada em sua forma presente, ou pelo menos emendada de modo a reconhecer e celebrar a amplitude e a diversidade de competências, conhecimentos especializados e formações educacionais dos muitos tipos de historiadores que constituem a profissão histórica.

Atenciosamente,

Efthymios Nicolaidis
Presidente IUHPST/DHST
Divisão de História da Ciência e da Tecnologia
União Internacional de História e Filosofia da Ciência e da Tecnologia

Tradução: Roberto Martins

Efthymios Nicolaidis

Veja o documento original, em inglês:

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